quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Philip Roth: sou Portnoy, seu puto?



Era para comprar Indignation e American Pastoral, do Philip Roth, e só, mas veio junto um Complexo de Portnoy – o diagnóstico, pois a doença era pregressa conforme constatei nos quatro dias seguintes. Li as primeiras páginas e veja lá: aquele pobre diabo sou eu, ele está falando de mim ali, sem nunca ter me conhecido!

Não sou judeu, não sabia o que era uma shikse, nem que eu tinha um putz, mas muito da vida dele, das coisas que aconteceram com ele são, sabe, minhas. Minha mãe também é a personagem mais inesquecível que eu já conheci e, adivinhe só, tal como para ele, isto não é um elogio. Nunca fiz terapia, mas acabei participando de uma longa sessão privada pela vida de outro homem, de outro advogado (Alex Portnoy é um advogado também! Filho da puta!).

Eu poderia passar horas falando sobre o quanto temos em comum, eu e aquele judeuzinho, horas, meus segredos!

Uma vez eu estava em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, num quarto de hotel com meu avô, um calor terrível, tinha uns sete anos, e ele saiu do banho. Eu acabei vendo o shlong dele. Sabe o que é um shlong? Ele não é judeu, mas tinha um. Imagine uma mangueira de incêndio enrolada com aquele negócio pendurado. Embaixo, “um rosto comprido e encarquilhado de um velho com um ovo enfiado em cada lado da papada caída”. A lembrança é minha, mas o testemunho é o de um Portnoy! Eu tive que abrir aspas pra ele falar o que eu vi! Ele estava lá também, irritado com os mosquitos? Onde??

Minha mãe me ligou no mesmo dia e, meu deus como é sábia essa mulher, perguntou se eu estava lavando direito o meu pipizinho. Nesse dia em que eu descobri que queria ter um shlong também! Terá ela lido esse livro? Eu terei sido um experimento, uma espécie de camundongo sociológico dessa pessoa inesquecível? Para Alex, a mãe mandava fazer um bom pi, enquanto que ele queria mijar “uma torrente de urina espessa e forte como uma corda” e, para mim, me mandavam lavar direito o negocinho – e justo neste dia! Não cheira a conspiração?

Eu poderia passar horas, como disse. As banalidades, a obsessão dele, as dúvidas, a culpa... A culpa! Essa incendiária que a todo momento me chama, confundindo meu nome: Rodion Raskólnikov, eu sei o que você fez, seu bandidinho! Não me chamo assim, respondo, cobrindo o rosto com o edredom, virando na cama para o outro lado. E a resposta dela? Não seja respondão, Gregório Samsa, não fale assim comigo, aqui vai mais um pouco de Baygon nas suas antenas sujas, seu garotinho malvado, e não reclame porque isso dói muito mais em mim do que em você!

Macaca é um espetáculo à parte, um bônus, um personagem marcante e tão bem construído a ponto de não se saber o que sentir por ela. Exuberante na cama e ignorante – ignorante mesmo, não daquelas que ficam entediadas com uma cena de filme com mais de cinco segundos de silêncio, mas daquelas que simplesmente não sabem escrever! Ele, o fabuloso Professor Portnoy, salvador das shikses burras, organiza uma lista de leituras de complexidade progressiva, exercitando o seu humanismo pedagógico. Ele conta sobre a saga de Clitemnestra, mesmo sabendo que metade do que dizia estava errado e, adivinhe de novo, ela o admira. Incrível, Alex, essa moça não sabe ler sem mexer os lábios; diga-me, bubala, qual é o seu problema??

É tão curioso ler este livro – acho que não estaria entre os dez melhores que li em minha vida, mas certamente entre os dez mais marcantes. Talvez eu o tenha comprado pelo fato de a tradução ser de Paulo Henriques Britto, que conheci e admirei em Uma casa para o Sr. Biswas, de Naipaul, e depois por outros textos. E pela capa.

O que não deixa de ser uma coincidência, pois este foi justamente o critério altamente sofisticado que usei para comprar no mesmo dia Solar, o novo livro de Ian McEwan; a capa que tem a textura de uma lixa de unha. Obviamente, esse mar de futilidade que guia minhas leituras não me faz merecer um puxão de orelha da culpa, aquela velha conhecida, mas eu sei que ela já está ali me encarando com um ar de preocupação, exclamando algo edificante como, o que será de seu futuro, meu Portnoy dos trópicos?


Matthew Frye Jacobsen’s Roots too


O humor da obra e, sobretudo, a fluência com que escreve, são admiráveis. Acredito que a estrutura, a forma da narrativa, e a idéia de um relato no divã talvez não fossem extremamente originais ou inovadoras nem para a época, mas Roth é exímio em relatar a experiência do vivido – a experiência individual do vivido, para ser mais exato. E é engraçadíssimo, talvez tanto quanto o hilário Pantaleón de Vargas Llosa. Repare bem, não aquele riso subjacente, que suspira pelo nariz, mas o barulhento mesmo, que abre a boca.

Serão vulgares ou mesmo impróprios os pensamentos do respeitado Comissário Adjunto de Nova Iorque? Sua condição judaica o exila das convenções culturais do ocidente? Mas então por que se sente impotente entre seus pares, quando viaja a Tel Aviv? Será contraditório admirar o austero Abraham Lincoln e, ao mesmo tempo, contratar uma garota em Roma para transar com Mary Jane? Qual é então o seu exílio, sua repressão? O atrito entre hormônios e religião? Uma crítica à criação dos pais, à cultura judaica? Aos Estados Unidos? Será apenas uma história interessante e muito bem contada?

Nicola Jennings, The Guardian
Talvez o desenvolvimento destas tópicas encontre certa dificuldade justamente por não terem sido, antes, resolvidas pela própria trama, que por vezes, bastante pontuais é verdade, pareceu hesitante, monocórdia no ritmo e no tema – quem dera escrever como Roth, mas a questão não é essa. Apesar de ficar completamente absorto e impressionado conforme lia, não vi a articulação e as possibilidades de leitura oferecidas pelo Pantaleón, por exemplo, apenas para manter a comparação. Ressalve-se que ambos os autores exploram o gênero da literatura erótica sem nele caber, e com excelentes resultados – diferente da impressão que tive com a Casa dos budas ditosos, de João Ubaldo, que coube com folga sem exceder.

Não tenho dúvida de que Philip Roth seja um autor importantíssimo e, se seu obsessivo interesse por sexo talvez não choque mais pelo menos grande parte de nossa sociedade, sua abordagem sobre fé, relacionamentos familiares, sobre os remordimentos e o lugar do indivíduo em uma sociedade hostil são absolutamente eletrizantes e atuais.

Sempre desconfiei que bons trabalhos literários portassem consigo, de maneira intensa, duas articulações imprescindíveis: de um lado, uma alta carga autobiográfica e, de outro, uma inestimável coragem para enfrentá-la e expô-la em público. Talvez seja justamente esta a chave para o imediato sentimento de identidade a que a leitura induz – porta também, como desdobramento, a idéia de que possivelmente não somos assim tão diferentes em nossas dores, culpas, desejos e perversões.

Outra antiga suspeita que se reafirma: há sim livros de fácil leitura, com grande fluência e, ao mesmo tempo, extremamente bem escritos. As pessoas provavelmente lêem obras ruins por falta de informação, talvez por sequer imaginarem que algumas leituras possam proporcionar reconforto intelectual à alma e, ao mesmo tempo, grandes prazeres.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Metempsicose: Ítaca, Ulisses, Joyce



Ulisses é um monstro. Terminar a leitura é de certa forma um sacrifício, um trabalho, um retorno para casa. Erótico? Hermético? Esquisito, lascivo, exaustivo: é possível que se conheça Leopold Bloom mais do que a qualquer outro.

Desistir do livro no meio do caminho, saltar páginas, detestá-lo, vomitar nele os órgãos e miúdos mastigados e não digeridos pelo judeu, cuspir, fazer gestos? Continuar lendo? Que se estrepe? Chamar Molly de puta, de vagabunda, detestá-la? Apaixonar-se perdidamente por ela? Achar graça? Querer fodê-la? Pros diabos? É mais ou menos essa a sensação.

Um dia em que todos os instantes, as impressões, as belezas, as hemorróidas e, sobretudo, os pensamentos fossem legados à memória escrita. Como se uma espécie de Irineu Funes narrasse um dia de sua vida; esta minuciosa operação, como recorda Borges, tomaria o tempo de um dia inteiro – um mapa da Irlanda tão exato e impecável que fosse justamente do tamanho da Irlanda.


O livro começa com o despertar, na manhã do dia 16 de junho de 1904, e termina novamente no limiar dos territórios do sono, com os personagens deitados na cama. Um tempo cíclico que, justamente na fronteira entre consciente e inconsciente, culmina com uma destruição refundadora depois da jornada de um dia na vida de Bloom; seu doomsday particular.

Sempre tive a impressão de que o Ulisses se tratou, antes, de um extenuante exercício de Joyce, e talvez por isso tenha ficado particularmente tocado com a abordagem de Caetano Galindo: de um lado, o paralelo homérico que persegue e questiona a estrutura do mito. De outro, a proposta inovadora da pretensão totalizante entre o formal e o material na construção de um realismo exaustivo, que explore e esgote as possibilidades do contar e do acontecer.

Galindo foca um ponto em tudo fundamental que permeia momentos cruciais do livro: o sonho, a embriaguez, a alogia. Momentos de descuido da vigília em que mito e logos dançam furtivamente fazendo com que o fluxo dos pensamentos extravase para a linguagem, contaminando a narrativa.

Quando Dédalus está bêbado na biblioteca, o texto se torna ativamente esquisito, tortuoso. Quando tira seus óculos, perde-se o fio da meada, a forma de contar é confusa, míope, desfocada. No capítulo do ciclope, em que Bloom encontra o irlandês xenófobo, a linguagem é gigante, hiperbólica. Os fragmentos ficam estranhos – e estranhos de jeitos diferentes para cada situação; a explicação é singela e a técnica a acompanha. Joyce persegue sua obsessão, sua radicalidade, a forma entranha o conteúdo.

Odisseu mata os pretendentes (440 a.C., Tarquínia)

À uma da manhã, um novo momento de torpor em Ítaca, talvez o trecho mais instigante, cômico e rico da obra. A sucessão de acontecimentos e de pensamentos é disposta na forma de uma espécie de inquérito debochado e cumulado de dados objetivos. Forma catequética, jocoséria.

Por que torpor se o texto finalmente se porta de um modo mais claro e inteligível? Por que e de que maneira cômico? Por que se organiza a narrativa desta determinada maneira, em centenas de perguntas e respostas?

Bloom e Stephen Dédalus conversam sobre inúmeros assuntos, conhecemos todos e cada um deles, sabemos sobre o que concordaram e sobre o que discordaram, que o antigo hebraico solicitou ao antigo irlandês que ministrasse aulas de italiano a Molly, Gea-Tellus já semeada, que o judeu esqueceu a chave, onde a esqueceu, em que bolso, quão incomodado ficou com seu esquecimento, que decidiu saltar o muro e como o fez, que tomou um tombo, quanto pesa, quando se pesou da última vez nos parâmetros dos calendários mosaico e maometano, de como se ergueu injuriado, quantos anos separavam um e outro, em que proporções. E que dois temperamentos representavam esses homens individualmente? O científico e o artístico, respectivamente.

Com este enxutíssimo truísmo talvez seja possível se acessar o espírito do trecho. A coisa vai longe. Ao entrar na casa, Bloom bate a cabeça em um móvel que o amante de Molly tirou do lugar e passa a fazer uma longa contabilidade dos objetos domésticos, de seus lugares, e do seu dia.

Ao subir ao quarto, percebe mais evidências da traição. Enciumado. Assassinato, não. Divórcio, não agora. Resignado. Queima incenso para exorcizar o cheiro do quarto. Deita-se, beija-a, ela acorda, ele a conta sobre seu dia. Ela lembra que há dez anos eles não fazem sexo. Ele dorme em posição fetal. Ela é a mãe-terra, ele é o marinheiro.

Uma inquietação incomoda o leitor: então o herói retornou da batalha e agora, prestes a ser reconhecido por sua Penélope, adormeceu? É. Mas por quê? E por que não foram respondidas devidamente as perguntas acima? Que tipo de homem é esse? Compartilho as inteligentes e sensíveis suposições da professora Yun Jung Im, que me levaram a escrever este post, e começo pelo torpor.

Onde deveria estar o clímax, encontramos um episódio frio, distante e que relata coisas supérfluas, despropositadas. A voz narrativa parece perder o rumo e se descolar dos personagens, conferindo-os uma dimensão fantasmagórica. É ela que está no palco, não eles; é dela a o fluxo de consciência, não deles. Se a errância de Bloom termina, começa a da linguagem.

Seria este um subterfúgio de preparação para Bloom se deitar com Molly quando não estava preparado para isso? E trazer Dédalus seria uma tentativa de racionalizar o mundo para não sofrer com a traição? É Joyce que distancia educadamente a voz narrativa para que o leitor não tome contato direto com a dor de Bloom? A proposta, tecnicamente instigante, precede o registro de todos os pensamentos de Molly ocorridos das duas às três da madrugada.

Observe-se que tanto Odisseu como Leopold elaboram um estratagema para entrar na casa; o rei vislumbra o brilho do elmo de Athena e o judeu flagra uma estrela cadente; ambos retornam de uma jornada. E inúmeras induções poderiam ser feitas, à exaustão. Mas apenas um dos dois é heroicizado e alcança a glória imortal cantada pelo aedo.

Então Bloom não foi capaz de alçar a história para seu ponto máximo, explosivo? Estará míope a narrativa? A culpa estaria na tradução rebuscada de Antonio Houaiss? Na de Bernardina Pinheiro? Estará também na tão aguardada edição de Caetano Galindo? Na trindade de vozes? Na transmigração da alma?

Pensemos um pouco melhor sobre isso. E se a direção do olhar do leitor é que estiver desfocada? Não estaria este suspeito observador buscando o momento apical do livro no lugar errado? Suponhamos que o clímax da obra esteja na linguagem, e não nos eventos, e enfim poderemos respirar um pouco mais aliviados. Ulisses é um monstro.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A máquina do mundo desconstruída


    

Já há um bocado de anos, em algum mês do final de 2001, eu e dois amigos fomos até a casa de Haroldo de Campos. Exultávamos a chance de levar um convite ao velho poeta para que palestrasse, mas, sobretudo, desbravadores, para que nos mostrasse sua biblioteca, seus livros empoeirados, e talvez até sua primeira obra de bacharelando em direito, Auto do possesso - há livros que a gente admira mesmo sem ter lido.

No caminho, tomei uma decisão dessas de um Cubas, tolas e absurdas que se penduram no trapézio e vão dando piruetas até serem subitamente sabotadas por um feliz lampejo de sanidade: eu confidenciaria a ele uma idéia sobre um livro.
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Por algum motivo inexplicável, A Máquina do Mundo de Drummond significou para mim por muito tempo uma oração que eu predicava em momentos impróprios. Disperso, passeava impunemente na estrada pedregosa de Minas nas aulas de álgebra. Encantado, abria seu majestoso e circunspecto mecanismo durante as explicações de química. E aquele até hoje continua sendo um dos meus poemas favoritos.

Haroldo de Campos havia acabado de dialogar com o texto do itabirano, em uma obra que eu jamais havia lido, translido ou sequer pego em minhas mãos, A máquina do mundo repensada. Obra densa, de maturidade.

Logo que soube do título, tomei por certo: A máquina do mundo desconstruída seria um dia o nome de minha obra mais importante e indômita. Como se vê, dela eu era portador do nome batismal; não me dava conta, na época, faltarem-me ainda o bebê e a pia.

Curioso como as coisas dão de acontecer de um jeito tão diferente daquilo que zelosamente planejamos em algum momento da vida: com o tempo, o que era para ser um livro definitivo se tornou a conjectura de um estudo pretensioso, depois, de um artigo literário, depois, de um ensaio erudito, depois, de um conto, agora um post. Mais um triz e viraria uma reminiscência opaca e fugidia.

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E então chegamos. Conferimos o número, a casa era aquela. Sorríamos uns aos outros. Bora lá.

Quando tocamos a campainha - arrepio - pela porta, que em minhas recordações aparece escura, cheia de adornos e entalhes, a casa pariu uma senhora de certa idade, talvez sua esposa, pessoa amável e bem vestida para quem não espera a visita de estranhos; e acredite, éramos um tanto estranhos.

Um de nós mais corajoso, não eu, disse a que vínhamos, se o professor Haroldo estaria, se poderia talvez nos receber se fosse possível, não avisamos, desculpe o incômodo.

Ela riu, com um ar que provavelmente hoje eu teria lido como zombeteiro, admirado. Sobre nosso embaraço, nossa falta de jeito, de graça. Mas logo recuperou a seriedade e a altivez. Disse está sim, queridos, mas ele está doente, anda meio indisposto. E não pudemos vê-lo naquele dia.

O poeta, já doente, morreu praticamente um ano depois de nossa visita incompleta, e eu jamais voltei à sua casa. Não sei se hoje eu poderia chamá-la precisa, mas certamente esta é uma das lembranças mais vivas do final de minha adolescência.

Gosto de pensar que, quando tocamos a campainha de sua casa, ele traduzia os últimos cantos da Ilíada, e o barulho fez com que perdesse o raciocínio e descuidasse de um verso que, por isso, acabou sendo escrito de outra maneira. Nesta versão patética e linda de nossa rápida visita, participei, ainda que discretamente, de um Canto indistinguível do poema, alterando a história.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O paradigma indiciário, ou a paisagem em que se habita




É já célebre a asserção de Ginzburg sobre os caçadores. Três homens espreitam em um bosque denso. O maior deles observa uma lança partida ao meio e o mato batido. Fareja cheiro de sangue. Reflete sobre a altura dos galhos quebrados. A história está prestes a ser contada a partir da articulação das pistas mudas: o caçador relata aos outros dois a recente passagem de um alce ferido.

A procedimento semelhante se prestam o médico, o juiz, o detetive, o psicanalista ou o adivinho: todos eles, cada qual a seu modo (por seus métodos) e movidos por diferentes finalidades ou propósitos, buscam positivar um acontecimento (uma história) de forma a conformar uma realidade que se pretenda minimamente objetiva.

Bebem, porém, de fontes que, por sua natureza inescapável, memorizaram (representaram, reduziram, deram suporte a) eventos a partir de sua própria e particularíssima percepção subjetiva. Estão dispostas, ainda, de uma determinada maneira (em uma paisagem). Como, então, interpretá-las (julgá-las) de maneira a recompô-las objetivamente se sua totalidade foi perdida nos desvãos da memória e o que se tem à mão são fragmentos (de objetos e de representações)?

Pioremos ainda mais nosso problema: nosso caçador mais alto, CSI do neolítico, resolve registrar o que viu nas paredes de uma caverna e, anos depois, o registro será descoberto (e interpretado) por uma criança. Logo depois, por um fervoroso seguidor de Cristo. Logo depois, por um renomado arqueólogo. Logo depois, por um bandido, caçador de tesouros. Cada um deles, a seu modo (por seus métodos) chegará a diferentes conclusões – estará alguma delas realmente incorreta? Seu repertório material foi o mesmo.

Tornemos isso tudo mais claro (obscuro): houve um assassinato. Proponho, com base no que acabamos de conversar, que você tente descobrir não apenas o assassino e os motivos que o levaram a cometer tão nefasto crime, mas, sobretudo, por que se buscou contar a história da maneira como foi contada.


Primeiro assassinato: Mother (2009)


Este filme foi tra(du)zido para o Brasil com o subtítulo A busca pela verdade. Depois de dirigir O Hospedeiro, Bong Joon-ho parece ter ficado ao lado de outros diretores sul-coreanos interessantes como Park Chan-wook (Oldboy), exóticos como Kim Ki-duk (O arco), ou mais difíceis de encontrar no Brasil como Jang Sun-woo (Resurrection of the Little Match Girl) – a tempo: Wong Kar-wai é de Hong Kong.

Do-joon padece de dificuldades para interagir com o mundo e vive com sua mãe em uma sufocante relação de dependência que, em alguns momentos, flerta com uma ingênua e sutil incestuosidade.

Uma garota foi assassinada na cidade provinciana e os policiais, ao interpretarem as pistas (os traços materiais) – uma pedra ensangüentada, um corpo sem vida – concluem rapidamente que o assassino teria sido Do-joon, presente na cena no momento do crime, na paisagem construída, e o prendem (indiciam, inventariam). Realizam uma reconstituição atrapalhada, teatralizada do homicídio. As fontes orais são escassas e não se revelam até o momento propício – para então se calarem.

Inoportuna, sua mãe comparece à cerimônia religiosa organizada pelos parentes da vítima e afirma a inocência de seu filho. Não porta provas, não demonstra uma narrativa alternativa coerente. Diante de uma afirmação sem compostura lógica as mulheres convulsionam; a cena é catártica.

Busca um advogado, perito nas artes da retórica, em desenredar eventos confusos (profusos) e dar vida às imagens mortas do passado, mas é em vão, os interesses do profissional se assentam em outros campos que não a busca da narrativa (um processamento, uma técnica) como instrumento de persuasão.

O filme trata da idéia da descoberta, da busca por uma reconstituição dos fatos que culminaram com o assassinato da garota, na perquirição dos atores e objetos envolvidos (da escrita da história). É quase hitchcockiano, assustador, e ao mesmo tempo cômico – um riso persistente que subsiste ao suspense. A atriz, ao construir a personagem inconveniente, hipnotiza. A personagem, ao percorrer o caminho, modifica-se.

Ao final, um assassino oculto se revela – inesperado, insuportável. A mãe recompõe, enfim, os eventos do crime e é possível supor que os acontecimentos a tenham obrigado também a reconstituir o curso de seu relacionamento com Do-joon, seu estar-no-mundo.

O motor da construção da narrativa é o compromisso com a inocência do filho, o que conduz a personagem (autora) a uma seleção criteriosa e severa (sanguinária) das fontes.

 Segundo assassinato: Rashōmon (1950)

Baseado em uma história japonesa registrada provavelmente entre os séculos VIII e XII, e que compõe o Konjaku Monogatarishū, o sempre jovem escritor Ryūnosuke Akutagawa, em 1914, então com 22 anos, escreveu o conto Rashōmon e, em 1922, o conto Dentro de um bosque, que narra sete diferentes versões labirínticas para o assassinato de um samurai.

Anos depois, sua obra inspiraria um dos filmes mais ricos, marcantes e incríveis de Kurosawa e uma das melhores atuações da carreira do excelente ator Toshiro Mifune, no papel do ladrão Tajomaru.

Conta um lenhador, perante a autoridade de sua aldeia, que encontrou na floresta, três dias antes, o corpo enrijecido de um samurai. Em seguida, um homem apresenta o ladrão e suposto assassino amarrado a si: encontrou-o contorcendo-se, jogado ao chão pelo cavalo. A partir deste ponto, três depoimentos se sucedem.

Tajomaru, o acusado, relata à autoridade que o samurai passou diante de si com sua bela mulher. Inebriado pelo olhar da jovem, atraiu seu contendor para longe com um ardil e o imobilizou. O ladrão mostra a ela o que fez com seu marido, para humilhá-lo. Determinada, ela tenta em vão ferir o gatuno, mas logo acaba cedendo e se entrega a seus braços. Em seguida, roga para que duelem: seguirá com aquele que prevalecer, mas foge logo depois do assassinato.

O depoimento seguinte é o da jovem: afirma ter sido violentada por Tajomaru, que fugiu em seguida. Aturdida, abraça seu marido, que segue impassível; entende o olhar do samurai e se desespera, mas entrega-lhe a adaga para que se suicide. Depois da morte dele, ainda tentou tirar a própria vida, porém sem êxito.

Em seguida, o falecido depõe por meio de um médium. Narra que, depois de violentar sua mulher, o bandido tentou convencê-la a seguir com ele, ao que ela assentiu, e mais: rogou, traidora, para que tirasse a vida de seu marido. O morto conta que até mesmo o ladrão censurou o pedido da jovem e perguntou a ele se queria que a matasse. Ela foge e Tajomaru corre em seu encalço. Já desamarrado, o falecido enterra uma adaga em seu próprio peito.

Longe da autoridade, o Lenhador confessaria que não encontrou o samurai já morto; escondido, viu o ladrão, depois de saciado, pedir à moça para que seguisse consigo. Ela exige que duelem por ela, mas o marido é um covarde e se recusa a lutar – o bandido, sem um pingo de coragem, vence mais por sorte do que por habilidade, depois de um duelo extremamente cômico e atrapalhado, e ela então foge.

Conforme apontou com acuidade Francisco Murari Pires, cada um dos personagens (autores) articula o eixo dos acontecimentos de modo que a honra, e não a verdade, presida a narrativa: Tajomaru se afirma como exímio duelista, a jovem afirma que seu marido se suicidou por não suportar vê-la violentada, o morto, senhor de si, tirou a própria vida, e o lenhador ocultou em suas duas versões ter aguardado tudo terminar sem intervir para então furtar as armas deixadas para trás.

Conte a história, Sherlock

 Ryūnosuke Akutagawa
O famoso detetive estaria corretíssimo ao recordar sempre a Watson ser tudo muito elementar: a história é composta por fragmentos, por escolhas (a memória se perde na poeira escavada).

Uma lança partida ao meio (um objeto, testemunho de um poder). O mato batido, os galhos quebrados (uma paisagem, uma abstração do entorno). Cheiro de sangue (uma percepção dos sentidos). Juras de amor assumidas com a verdade – sem ironias, o compromisso do historiador é (deve ser) real, sob pena de que o relato seja condenado ao mundo da ficção ou do ceticismo relativista. Tanto melhor (e mais belo) o exercício se sacramentado por um método, abençoado por um suporte teórico.

Recompõe-se (constrói-se) a paisagem, nela são dispostos os objetos selecionados. Alocam-se os verbos que relatarão a ação ocorrida no transcurso do tempo (recorte), escolhidos a dedo. Rebobina-se a cena, já editada. Conta-se uma história, publica-se, registra-se o acontecimento. De volta ao torvelinho da memória.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dentro da coisa e a respeito da coisa

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Em uma aula de história moderna, a professora conversava conosco sobre o poder do acaso: como, por não ter simpatizado com uma pesquisadora californiana, referência na área, em quase toda a sua vida deixou de lê-la - como preferia outros livros ao dela ao freqüentar bibliotecas e livrarias. O quanto não terá se modificado a história moderna em virtude da antipatia da professora, tão admirável quanto a outra?

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...Mas será esta a melhor maneira de se iniciar um post?

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A peça IN ON IT começa por constatar: algumas coisas, como uma peça de teatro, um livro, um blog, são planejadas, pensadas, avaliadas. Outras, obedecem ao acaso, como uma colisão no trânsito.

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Traduttore, traditore: o nome da obra, estranho de plano, seria algo como "por dentro de algo", mas bem poderia ser seccionado em duas fatias - dentro dela estão os personagens; contudo, também a respeito dela eles conjecturam. Para um jovem estudante canadense de inglês, talvez remeta aos mecanismos lingüísticos indicadores do tempo e dos lugares, coisificando-se o at.

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Remete não a despropósito: trata-se do lugar da representação, reconstruindo-se o texto a ser representado representando-o diante da platéia. E trata do tempo da memória, ressignificada a partir do tempo presente que, simultaneamente, ao ressignificá-la, discorre sobre o da ficção.

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Nada disto é confuso quando se assiste a peça. São dois atores de carne-e-osso. Que representam um autor e seu namorado. Este autor mostra a seu parceiro a sua obra e, para fazê-lo, eles a representam. Na obra, um homem descobre que irá morrer e que está sozinho. Autor e namorado, ao comentarem sobre o texto, intercalando representação e comentário, relembram seu próprio passado, a partir de duas indagações: você tem certeza que esta peça deve realmente ser escrita desta maneira?, e nós fomos felizes?

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Particularmente, assisti a peça em meio a uma tentativa de reconciliação de um amor mútuo de longos anos, o que me pegou de surpresa. Tendo sido deliberadamente abordado, comecei a supor formas de abordá-la.

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Os caminhos da linguagem que se interpenetram é uma das maneiras extremamente instigantes para se acessar a obra. A morte e o amor estão ali, as estranhas dinâmicas das relações estão ali, a solidão sem-fim está ali. Discute-se a importância das coisas, a casualidade das coisas.

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Como entender a separação, a morte? E se nós fomos felizes, se devemos realmente continuar juntos? As amarras e dobras da memória são suficientes, ou poderá acaso algo (fortuito) como o acaso nos separar? E se foi justamente este acusado-acuado acaso o responsável por nos aproximar?

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Os tempos/lugares de IN ON IT nos possibilitam outro entroncamento argumentativo: em que medida o presente é regido pelo passado? Em que medida reforjo o tempo da memória no canteiro de obras do presente? Até onde vai a representação - ou até onde sou eu mesmo? Ator ou autor no mundo?

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Quando a resposta escapa a toda forma de abordagem racional, talvez apenas a ficção indique um caminho às preocupações mundanas, como quis Lucien Goldmann: a literatura (a arte, a imaginação) acessa a tomada máxima de consciência - não é com um tratado, mas com o devaneio de um cavaleiro andante que se funda o romance moderno.

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A questão aflige a História e aos historiadores da minha geração ao se debruçarem sobre o passado. Aflige a mim mesmo, a meus amigos e conhecidos. Como estar dentro desta coisa e discorrer a respeito dela, dotá-la de inteligibilidade? Como o controle da coisa onde o acaso? A imaginação, como o sonho ou a arte ou a escrita cuneiforme ou a matemática, seria mais um suporte para se acessar a realidade? Em momento algum se perde a linha do raciocínio; o público é conduzido e interage, o espetacular acontece, as coisas simplesmente acontecem..

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Imerso na segunda camada da ficção, o personagem que irá morrer (ora representado pelo autor da peça, ora representado por seu namorado), morre. Não da forma como haveria de morrer inicialmente, mas envolvido em uma batida de carro, em um terrível acidente de trânsito. Operará o acaso? Escurece, há palmas, alguns já se levantam.

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Ora, não acaba assim, quase reclama o autor, triunfante, ao suspirar, ao tornar a si: o público gosta de tudo amarradinho (talvez este seja Daniel Maclvor falando diretamente a seus espectadores). Enfins, o namorado do autor põe o casaco, vai sair para comprar (um cigarro? um jornal? papel-higiênico?) e, então, convergentes no tempo e nos lugares da narrativa, ficção e realidade se encontram ao dobrar a esquina.

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Este aí seria um bom jeito de terminar o post: dramático, sem grandes spoilers a quem não viu a peça, faria sentido para quem a assistiu e talvez até provocaria algum prazer estético, quase banal. Mas não termina assim, convencional, busca surpreender e surpreende, a obra de arte não deixa saber sobre o que exatamente se está falando, mas fala, e algumas coisas não terminam, apenas param. Competirá a seus personagens dolorosa tarefa: para retomarem seu curso, para enfim terminá-la.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Volto porque te amo

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Proponho o exercício de ler um filme. Viajo porque preciso, volto porque te amo. Primeiro, a localização dos realizadores, das biografias, da formação acadêmica, da obra pregressa.

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As camadas mais evidentes que presidem a narrativa: a transposição do rio São Franciso, o olhar do geólogo sobre o Nordeste setentrional, a dor da separação.

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Um plano mais atento: a forma da narrativa, a primeira pessoa, a linearidade do tempo presente, o personagem jamais visto. Os grandes planos. A acuidade fotográfica.

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O labor técnico: a multiplicidade dos suportes do registro cinematográfico. Uma câmera digital, uma máquina fotográfica. Uma bitola 35 mm, onerosa, uma Super8, acessível ao cineasta mais jovem, tão cara a Fernando Spencer no Recife de outros dias. O que escapa do olhar? Quando se usa a 16, quando a 35 a eu mais leigo? O que a experiência sobre a cena modifica ou é modificada? Quais as dimensões de cada uma das sensorialidades dadas a conhecer pelos cineastas? Por que motivo uma em detrimento da outra, em que momento?

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Quanto ao caminho: um relato de viajante, de peregrino, descendente da cultura retirante. Um diário. Uma obra epistolográfica a Galega, destinatário já inexistente. A riqueza do olhar, uma descoberta. A viagem transformadora, o rito de passagem. Da costa ao sertão. Do mito à aridez da experiência do vivido. Viaja porque precisa se reencontrar.

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O jogo de opostos: a observação metodológica do geólogo exato, a angústia do espírito ferido. Quer voltar, não quer voltar. A despedida da esposa: não volto porque ainda te amo. E se liberta: não há mais como voltar.

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No uso dos planos e dos enquadramentos: conforta e desconforta o narrador-espectador no espaço da cena, detrás de um caminhão baú, diante dos grandes planos.

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Narrador-cineasta: observa o casal de velhos, afogados no peso de suas fotos, ex votos, imagens. O marido sai do plano. Pede que volte. Não é ele quem vai separá-los, mas representa a separação do casal de suas memórias. Representa a vazão do rio, o progresso, a flecha do tempo.

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No plano sinestésico: a sobreposição das leituras: a transposição da alma, afogada no amontoado da memória. Ao fim se liberta do afogamento, mergulha para a vida. A aridez do solo, a desolação da paisagem, do personagem. As cidades esvaziadas. O vazio dos futuros desalojados; nada está adiante. A imagem chapa a realidade documental; os sons desmentem os olhos e nos deslocam ao plano mítico. A canção do sapateiro é ponto alto, inocente, desperta risos, afeição, prazer estético. O sapateiro entretece som e imagem, prega no couro do calçado mito e realidade.

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Uma crítica: o cineasta não explora a geologia, não ensina ao espectador a linguagem da pedra, não mostra o lento movimento da montanha, não desvenda os desvãos da linguagem técnica, não desenha o contorno da bacia, oportunidade perdida.

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A dimensão social: se não é explícito como Madame Satã, é sensível. A prostituta deseja a vida-lazer. O que é lazer, pergunta, é ter alguém para amar, responde. Uma casa. O narrador paga por prazer, redescobre-se. Com outra garota, desiste no caminho para o programa. Olhar triste da garota, incômodo. Desconforto persistente, dolorido. A miséria salta aos olhos, a ignorância salta aos olhos, a religião assalta os olhos: a festa da Padroeira. Padre Cícero. Juazeiro do Norte está sempre cheia de gente.

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A política: o rio, a obra, por que a insistência, pergunta, não é problema seu, responde, dá de ombros, os realizadores não respondem. As cidades se esvaziam. A diversão rudimentar do circo diante da iminência do dilúvio. Um casal conversa, é ricamente descrito, agora já é possível rir, maravilhar-se com a presença do outro.

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De um grande mérito: tem coragem de inovar, de contrariar os manuais, é exímio com o tratamento da imagem, forma e conteúdo. É experimental, não amador. É arte e entretenimento. Como o rio, busca um novo caminho.

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Ao final do filme, depois de longos mergulhos, experimentei uma sensação de profunda imersão. Poucos, senão nenhuns, levantaram-se até muito tempo depois de se erguerem os letreiros. A música deu seqüência à narrativa e tornou trabalhoso se desapegar da poltrona. Um filme rico de ser lido.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Objetivos! Objetivos!

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Havia certos escritos na gaveta que mereciam algum ar puro por bom comportamento e, por isso, este blog.
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Contra o conselho de Olavo de Carvalho, opino logo de cara sobre José Serra e autonomia universitária:
  • Aprendizado e violência: da autonomia à militarização do espaço universitário (clique aqui)
Contra o conselho da boa publicidade, coloco alguns trabalhos de história resgatados do mais completo esquecimento:
  • Do rancor de Apolo à alegoria do vampiro - leituras da peste, sombras da morte (clique aqui)
  • Juízes e eleições: entre o poder pessoal e o Estado no Brasil do século XIX (clique aqui)
  • Resenha do mestrado "Guerra entre pares" de Erik Hörner (clique aqui)
  • "Baixa cultura" escrita e formação da opinião pública na França pré-revolucionária (clique aqui)
Contra o conselho do bom-senso, por fim, publico outras coisas, entre as quais um conto que particularmente me agrada, acerca de um cão urbano:
Ao serem publicados, fico com a impressão de que será como se estes textos subissem no poste: estarão sobre o pedestal, mas fora do alcance da luminária - nem tudo se ganha.

Ficam relegados a este pequeno labirinto, coxa suculenta de novilho a Mnemosyne, mãe de Clio.